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pra virar história de gibi…

 

manara

 

 

CENA 1: casal/interna

Casal nu
deitado na cama desarrumada em um quarto de motel de alguma perimetral
no norte do Brasil numa madrugada. Barulhos de caminhão passando, um
brega tocando. As antigas caixas de som do quarto tocam Detalhes de
Roberto Carlos.

    – Vamos abrir as janelas? – perguntou ela
  
– Não vê que ainda chove, é melhor ficar assim…deixe fechadas! – diz
ele, rasgando a fala como se não sentisse o calor que impregnava.
    
O quarto onde estão é estreito demais, uma cama, dois corpo e nada
mais. A mulher se aproxima ainda mais da parede próxima à cama,
pensando encontrar ali algo mais gelado que seu corpo. Busca no tato a
nova temperatura na superfície descascada e úmida, estende o corpo,
fecha os olhos, respira pela boca, como se estivesse boiando no mar, se
afunda na parede, desprende do momento que acabara de se consumar entre
dois corpos e fala em voz baixa algumas palavras…
     Será que
ela deu pra falar francês agora? – pensou o homem aflito, sem entender
o que ela fala, ao ver que a mulher se atracava com a parede e ele
havia sido deixado de lado. Aproxima-se pelo menos 2 milímetros dela
para certificar que a mulher fala algo, pensou que deveria ser alguma
coisa que ela canta quando conversa com seus orixás. Supondo que ela
poderia ter ficado chateada com sua grosseria, se levanta e abre a
janela…a chuva entra e molha os pés da cama. Ele olha para a chuva e
o movimento de pessoas lá embaixo, um entra e sai no brega daquele
local, reparou que muitas pessoas permaneciam na chuva embaixo de uma
antiga samaumeira
(árvore da Amazônia que possui coração). Eles estavam ensopados, e
conversavam, dançavam como se fosse uma madrugada estrelada de lua
cheia. Não reparou que a mulher já havia voltado do mergulho e ao seu
lado estava observando o movimento também, continuava nua.
     – Pelo menos bota um pano ai pra cobrir!
    Ela sorri:
    – Ifè (amor),  vê que coisa mais bonita! Saravah!
Tem que ter força na batalha..é tanta gente na água. Se não tiver o
amor? O que a gente faz…sem amor? O que estaria a pensar toda essa
gente na água? Sente aqui (ela conduz a mão dele até seu peito)…pulsa
não?(ele somente observa). Você tem que acreditar em mim, tu vives
aqui…sente…não pulsa? (silêncio, barulho da chuva que entra no
quarto e bate nos corpos escorados na janela) Oxe, tu tá com algum
problema, ficou surdo? Perdeu a fala? Eu me deixo, eu ouço, eu
falo…Monifè! E tu nem percebeu ainda que tu já tá todo molhado! (ele
volta seus olhos para seu peito molhado onde ela vai sorrindo e
colocando a mão) Tu tá sentindo? (silêncio) Tá pulsando!
    Se olham. Os corpos se colam no segundo dum luminoso raio.

CENA 2: forró/externa
   
Um casal que dança, na chuva, ao som do brega, observa o par na janela
do quarto se tocando e se consumindo. Comentam um na orelha molhada do
outro, ao mesmo tempo:
    – Amor, vê que coisa mais bonita!

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(desenho de milo manara)

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